Um papo com María Emilia López

Maria Emilia Lopez

por Priscilla Brossi

A importância da leitura desde o berço

Lançado no Brasil o livro Um pássaro de ar — a formação de mediadores de leitura para a primeira infância (Selo Emília/Solisluna Editora), da pesquisadora argentina María Emilia López. A obra trata da mediação de leitura na primeira infância a partir de um projeto com bibliotecas públicas na Colômbia. Documenta os resultados da experiência e convida os leitores a pensar sobre a relação entre leitura e bebês/crianças até os seis anos. Se apoia nos relatos e documentos dos profissionais envolvidos no projeto e das anotações da própria autora. Como resultado, tem-se o registro de como pode ser potente o contato com a narrativa literária e poética desde a infância. 

Conversamos com María Emilia sobre a edição brasileira do livro e sobre a importância da leitura desde o berço. “Já está claro que crescer sem livros não é o mesmo que crescer com eles”. Leia a seguir a entrevista.

 

O livro trata da mediação de leitura na primeira infância a partir de um projeto com bibliotecas públicas na Colômbia. Ele documenta os resultados da experiência e nos convida a pensar sobre a relação entre leitura e bebês/crianças. Quais são as descobertas e lições mais importantes aprendidas que você poderia destacar?

Acredito que Um Pássaro de Ar destaca a potência de uma intervenção cultural e afetiva no espaço público voltada aos menores de 6 anos, que nem sempre são considerados sujeitos culturais e todas as crianças têm direitos culturais, especialmente aqueles relacionados à cultura escrita e à oralidade poética. Nesse sentido, os registros de observação e escrita das mediadoras e dos mediadores são muito esclarecedores, revelando as formas lúdicas e heurísticas com que os bebês leem, por meio da exploração pura, bem como a capacidade de atenção e a imersão progressiva nos livros como brinquedos especiais. Também são significativas as mudanças que se revelam nas crianças e em seus pais quando participam das sessões de leitura. Vemos a transformação dos vínculos afetivos e o aprender a se relacionar com os filhos por meio de materiais que nem sempre estão à mão, como os livros.

Outro aspecto muito interessante é que a experiência da leitura, mediada por pessoas sensíveis e psicologicamente disponíveis para o encontro, gera trocas verbais. Neste tempo de enfraquecimento acentuado da interação humana, uma intervenção que gere linguagem verbal e conversação é verdadeiramente revolucionária. Crianças pequenas não conseguem viver sem interação humana. A linguagem e o corpo são ferramentas essenciais nessa troca, mas que tem escapado da vida cotidiana. As sessões de leitura, portanto, estabelecem uma experiência humana fundamental e o fazem de forma amorosa.

Livro Um pássaro de ar - Capa

No livro, vemos as experiências de mediação de leitura em uma realidade latino-americana. Há desafios e oportunidades que registrou nesse contexto?

Sim, claro, na América Latina temos uma grande necessidade de continuar trabalhando na democratização da leitura, no acesso generoso aos livros e na revisão dos acervos. A discussão sobre o que constitui um bom livro para os pequenos leitores deveria ser prioridade em escolas, bibliotecas e outros espaços para crianças. O cânone infantil é influenciado pelas questões culturais de cada época, pelas formas de pensar a maternidade/paternidade e as relações de poder entre crianças e adultos e, nesse sentido, nosso tempo não está isento de tensões.

Também enfrentamos um enorme desafio com os planos nacionais de leitura: na maioria dos países, crianças menores de 3 anos mal são mencionadas como público de atenção. Isso seria tornar realidade a justiça social: garantir que todas as crianças menores de 3 anos pudessem ter acesso a banhos de linguagem,  livros como brinquedos e conversas sobre as realidades apresentadas nos livros. Seria também exercer justiça poética, porque já está claro que crescer sem livros não é o mesmo que crescer com eles. Não é o mesmo crescer sem poesia ou sem estar cercado de palavras que buscam nomear o sentido estético do mundo.

Ainda sobre os desafios, a formação de educadores, bibliotecários e aqueles que irão atuar na mediação de leitura em geral também merece um capítulo à parte. Por um lado, como os bebês e as crianças pequenas são seres enigmáticos, não é fácil para um adulto responder espontaneamente às necessidades dos pequenos, não é fácil "ler" seus processos de leitura. Portanto, é necessário treinamento específico. E, por outro lado, as próprias histórias de leitura e escrita são muitas vezes tingidas de experiências desagradáveis e excessivamente escolares, vinculadas à "aprovação" escolar e isso influencia as possibilidades de mediação de cada pessoa. Portanto, ativar os aspectos lúdicos, generosos e de boa escuta da mediação é algo que requer treinamento. Essa disponibilidade nem sempre está prevista nos programas de formação dos governos. 

Disponibilizar livros para diversas instituições é essencial, mas se esses acervos não forem acompanhados de reflexões profundas, observações e leituras compartilhadas que construam significados em torno da leitura desses livros, é provável que os livros fiquem guardados ou que as crianças não tenham permissão para usá-los livremente ou ainda que a mediação empobreça a capacidade de leitura abrangente das crianças. Um Pássaro do Ar foca justamente nesse tema e apresenta um processo de formação completo, abrangendo tanto a metodologia de trabalho e a bibliografia quanto os registros de observação e construção de sentido dos participantes.

Livro Um pássaro de ar - Miolo

Em geral, não é comum associar bibliotecas públicas como espaços para bebês ou crianças muito pequenas. Você fala no livro sobre a ideia de que as bibliotecas podem ser ambientes culturais amorosos para eles. Por que é importante a experiência do espaço público na primeira infância?

Por muitas razões… Primeiro, pelos livros, que não estão presentes em todas as casas. Poucas famílias pensam no enxoval do bebê como um espaço simbólico que poderia abrigar um livro e algumas músicas (e aqui o aspecto simbólico fica mais claro, porque abrigar músicas no enxoval significa tê-las em mente, buscá-las e aprendê-las para tê-las mentalmente prontas quando o bebê nascer). Não se pensa nisso porque a compreensão sobre seu valor ainda pouco alcance. Mas estamos cada vez mais espalhando essas ideias, compartilhando experiências valiosas que despertam o interesse das pessoas, embora exista a competição de outras variáveis sociais muito poderosas. O mundo do consumo impõe objetos, valores e “vende” outras coisas, então os livros ficam em segundo plano. Não se pode esquecer que para muitas famílias os livros são caros, o que dificulta a criação de suas próprias bibliotecas.

Há outro aspecto, que é quase uma obsessão para mim: os laços entre adultos e bebês e crianças pequenas. É um momento muito difícil para relacionamentos em geral. Nós, humanos, estamos perdendo uma certa capacidade de percepção, de atenção e de escuta; isso é parte da mutação humano-tecnológica. E essas perdas em nossas habilidades têm uma grande influência no desenvolvimento infantil. Não existe ser humano sem criação e criar significa proporcionar uma visão compartilhada, linguagem verbal e corporal na interação com as crianças; ser capaz de se sustentar em uma situação de brincadeira, em sincronia, no mesmo fio narrativo. Isso está em declínio hoje. Nesse sentido, bibliotecas e espaços públicos são ambientes amorosos que geram experiências que nem toda mãe ou pai consegue alcançar sozinho: o livro, o mediador criam experiências de trocas, “treinam” mães e pais para exercerem algumas habilidades como a atenção compartilhada, a escuta e a construção de sentido em uma situação compartilhada. O livro também oferece um repertório de palavras e um tópico para conversar, o que é um recurso básico para maternidade/paternidade. Poderíamos dizer que quando as bibliotecas e os diversos espaços para crianças acolhem momentos de leitura trabalham em prol do cuidado integral do vínculo e, claro, também contribuem para construção de cada percurso de leitura. 

E eu acrescentaria mais uma coisa: os processos convencionais de alfabetização são nutridos por essas primeiras experiências de leitura, pelo prazer de ler, imaginar e estar juntos. Isso é muito importante quando consideramos os níveis de alfabetização que meninas e meninos alcançam: não é por meio da "preparação" na escola primária, mas sim quando a abordagem é genuína, desde os primeiros estágios da vida, que eles chegam a esses processos com muito conhecimento e são capazes de colocar em prática por si mesmos e também com prazer. Não sei se existe no Brasil esse ditado popular: “a letra com sangue entra". Significa que se você não aprende facilmente, aprenderá com sofrimento, e muitos meninos e meninas passam por essas situações. O que observei em meus muitos anos de pesquisa é que quanto mais experiências de brincadeira e leitura os bebês têm mais acessível e agradável se torna o aprendizado da leitura e da escrita.

Livro Um pássaro de ar - Dorso

O tema que permeia todo o livro está presente há muito tempo no seu trabalho: a leitura na primeira infância e o quão poderoso é o contato com a narrativa literária e poética desde muito cedo (temos como referência seu primeiro livro publicado no Brasil Um Mundo Aberto — Cultura e Primeira Infância). Por que tal relação é importante? 

Porque toda a experiência dos bebês se inserindo no mundo é lúdica. Não há diferença entre o lúdico e o poético no início da vida. Poderíamos seguir assim também na vida adulta, mas já sabemos que isso muda. 

Os bebês tentam capturar o significado e as propriedades das coisas por meio de brincadeiras, não apenas físicas, mas também imaginativas. Quando descobrimos um bebê se escondendo espontaneamente atrás de seu cobertor, esperando que digamos “aqui está”, ele está nos mostrando sua capacidade poética. Ele brinca de desaparecer para ter certeza de que pode aparecer, ele ensaia se é verdade que quando sua mãe vai embora, ela volta. E ele faz isso imaginativamente. Esse jogo é uma metáfora e metáforas são formas poéticas de viver. Essa brincadeira também é uma narrativa, a história que o bebê inventa sobre a mãe que vai embora e volta, e o bebê que aprende a esperar por ela sem se desintegrar. Isso já nos fala sobre a capacidade emancipatória dos bebês.

Se adicionarmos livros literários a essa brincadeira espontânea, a riqueza de experiências se expande. Não apenas inventam e brincam com suas próprias experiências, mas também poetizam outras histórias, outros espaços, cores e personagens. Quando há experiência literária desde cedo, a brincadeira e a linguagem encontram vitaminas para nutrir a capacidade de imaginar, de conectar o interior das próprias experiências com o exterior, para elaborar e compreender os próprios mundos e os outros mundos. A literatura dá autonomia.

Livro Um pássaro de ar - Contracapa

Um pássaro de ar de María Emilia López foi editado no Brasil em março de 2025, fruto da parceria Selo Emília e Solisluna Editora. Esta obra compõe a coleção Ensaios para pensar a leitura, disponível em nosso site.

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