Valéria Pergentino entrevista Marcio Pimenta
Encontrando Darwin
Uma expedição pelos confins do mundo
Quase dois séculos separam as viagens de Charles Darwin e Marcio Pimenta pela Patagônia, mas uma mesma inquietação parece aproximá-los: a curiosidade diante do mundo e a disposição para deixar que a realidade desafie certezas.
No livro Encontrando Darwin – Uma expedição pelos confins do mundo, Marcio percorre alguns dos caminhos trilhados pelo jovem naturalista a bordo do Beagle, transformando a viagem em um diálogo entre passado e presente, ciência e memória, paisagem e experiência.
Mais do que seguir os rastros de Darwin, o explorador se deixa atravessar pelos territórios, pelas histórias e pelos encontros ao longo do caminho. Nesta conversa, Marcio fala sobre o que significa explorar sem conquistar, sobre a importância de observar antes de concluir e sobre a curiosidade como uma maneira de estar no mundo. Afinal, como ele próprio nos provoca, talvez viajar não dependa tanto da distância percorrida, mas da qualidade da nossa atenção.

O que motivou você a seguir os passos de Darwin pela Patagônia e transformar essa experiência em um livro?
A curiosidade sincera de Darwin. O homem que mudou a forma como entendemos a vida na Terra, que tirou o Homo sapiens do pedestal, era, antes de tudo, um jovem disposto a conhecer o mundo. Mais do que isso, teve a rara capacidade de se despir do que acreditava saber, deixar os dogmas para trás e permitir que a realidade o surpreendesse. Era um explorador no sentido mais profundo da palavra.
O que sempre me interessou em Darwin foi menos as respostas que encontrou do que as perguntas que teve coragem de fazer. Por isso, Encontrando Darwin, em sua essência, não é um livro sobre Darwin. É um livro sobre curiosidade, observação e sobre como uma viagem pode transformar a maneira como olhamos para o mundo.
Em vários momentos, a narrativa sugere que a jornada é menos geográfica e mais uma travessia interior. Como essa experiência transformou seu olhar sobre o mundo e sobre você mesmo?
Toda expedição começa no mapa e termina na maneira como passamos a enxergar o caminho. Viajar por semanas, sozinho, obriga a conviver com o silêncio, com o erro e com a incerteza. Voltei convencido de que compreender um território exige muito mais do que atravessá-lo. É a diferença entre turismo e exploração. O turista atravessa o território, o explorador é atravessado por ele. E é preciso aceitar que nem tudo será explicado e que, muitas vezes, observar com atenção é mais importante do que chegar a qualquer conclusão.

Durante a viagem, você encontrou cientistas, pesquisadores e povos originários. Que aprendizados desses encontros mais o marcaram?
O que mais me chamou a atenção foi que ninguém conhecia aquele território apenas por pertencer a um determinado grupo. O conhecimento vinha da convivência. Os cientistas observavam processos ao longo de décadas. Os descendentes dos povos originários carregavam histórias transmitidas entre gerações, mas também reinterpretadas pela experiência do presente. Em ambos os casos, compreender o lugar era resultado de tempo, curiosidade e atenção, não de identidade. Foi uma boa lembrança de que conhecer um território exige muito mais do que ocupar um espaço nele.

O título do livro sugere um encontro com Darwin, mas o leitor percebe que esse encontro acontece em diferentes camadas. Afinal, quem é o Darwin que você encontrou ao longo do caminho?
Encontrei um Darwin muito diferente da imagem cristalizada do cientista genial. Encontrei um jovem curioso, disposto a errar, muitas vezes inseguro, sempre atento a registrar dúvidas e a rever as próprias certezas. Aos poucos, percebi que encontrar Darwin não significava encontrar um homem que viveu há quase duzentos anos, mas encontrar uma atitude diante do mundo. A disposição de observar antes de julgar, de fazer perguntas antes de oferecer respostas e de permitir que a realidade desafiasse convicções. No fim, esse talvez seja o único encontro possível com Darwin.

A Patagônia costuma ser retratada como um território extremo e desafiador. Como você procurou fugir da ideia de conquista e construir uma narrativa baseada na escuta e na observação?
Curiosamente, a Patagônia sempre me tratou bem. Talvez porque eu tenha aprendido, desde a primeira viagem, a respeitar seu modo de ser. Foi ela quem me ensinou que a palavra conquista faz pouco sentido. Nenhuma montanha, nenhuma floresta e nenhum deserto podem ser conquistados. E, para ser sincero, eles são completamente indiferentes ao que pensamos. Continuarão ali quando formos embora.
Procurei escrever sobre a Patagônia como ela realmente é: um território habitado por pessoas, histórias, memórias e diferentes formas de conhecimento. O papel do explorador não é dominar a paisagem, mas desenvolver a capacidade de lê-la. Toda paisagem conta uma história. O desafio é aprender a escutá-la.
Como explorador apoiado pela National Geographic Society, você já percorreu diferentes territórios. O que tornou essa expedição única em relação às demais?
Estive na guerra do Iraque e vi o terror. Na Antártica, a paz plena. Na Amazônia e no deserto do Atacama, a força da vida. Mas a Patagônia me ofereceu algo diferente. Foi a primeira vez que viajei tendo um personagem histórico como guia. Darwin não me mostrou o caminho. Mostrou uma maneira de olhar. Estava presente o tempo todo, nas páginas de seus diários e nas perguntas que surgiam diante da paisagem. Em vez de buscar apenas o desconhecido, a expedição se transformou em um diálogo entre passado e presente. Foi uma forma diferente de explorar.

O livro aborda temas como ciência, natureza, memória e pertencimento. Como foi o desafio de transformar reflexões tão amplas em uma narrativa acessível para diferentes leitores?
Procurei partir sempre da experiência concreta. Uma conversa, uma estrada, um fóssil, um glaciar ou uma refeição dizem muito sobre temas complexos quando observados com atenção. Nunca quis escrever um livro para especialistas. Meu objetivo era contar uma boa história e confiar que as reflexões aparecessem naturalmente ao longo da viagem.
Talvez isso também tenha relação com a minha formação de economista. Durante a universidade, senti falta de livros que unissem rigor intelectual e prazer pela leitura. Havia excelentes trabalhos acadêmicos e excelentes narrativas de viagem, mas raramente encontrava obras capazes de fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Encontrando Darwin nasceu, em parte, da tentativa de escrever o livro que eu gostaria de ter encontrado naquela época.

Em um mundo marcado pela velocidade e pelo excesso de informação, Encontrando Darwin parece fazer um convite à desaceleração. O que você espera que os leitores levem dessa experiência de leitura?
Espero que terminem o livro olhando um pouco mais devagar para aquilo que está à sua volta. E devagar, aqui, não significa parar. Significa prestar mais atenção. É possível atravessar um continente sem enxergar quase nada e descobrir um mundo inteiro durante uma caminhada de poucos quilômetros. Viajar não depende apenas da distância percorrida, mas da qualidade da atenção. Se o livro despertar mais curiosidade do que certezas, já terá cumprido seu papel.
Depois de escrever Encontrando Darwin, existe alguma pergunta que permaneceu sem resposta — ou que se tornou ainda mais importante para você?
Talvez a principal seja esta: como continuamos capazes de olhar um lugar como se fosse a primeira vez? A familiaridade costuma ser uma péssima observadora. Darwin preservou essa curiosidade durante toda a viagem. Escrever o livro me fez perceber que essa talvez seja a habilidade mais difícil de manter, tanto nas expedições quanto na vida.

Saiba mais sobre o livro Encontrando Darwin, publicado em 2026, editado pela Solisluna Editora. O livro está disponível em nosso site e nas principais livrarias do Brasil.

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