Um papo com Ludmila Singa

Um papo com Ludmila Singa

Valéria Pergentino entrevista Ludmila Singa

Mulher Inteira

Entre fragmentos, afetos, feridas e renascimentos, a poesia de Ludmila Singa acompanha uma travessia íntima em direção a si mesma. Em Mulher Inteira, o corpo guarda memórias, a delicadeza se revela força e a palavra abre caminhos para reconstruir territórios afetivos.

Em uma conversa com Valéria Pergentino, Ludmila fala sobre seu novo lançamento e a descoberta de que ser inteira não significa não ter rachaduras, mas aprender a habitar tudo aquilo que somos.

Ludmila Singa

Mulher Inteira é o seu primeiro livro autoral, mas a poesia e a palavra já fazem parte da sua trajetória artística. Em que momento você percebeu que os poemas que vinha escrevendo não eram mais textos isolados, mas começavam a formar um livro?

O livro começou a existir antes de eu saber que estava escrevendo um livro.

Alguns poemas de Mulher Inteira existem desde 2018. Eram textos que eu escrevia em momentos muito específicos, quase como quem deixa uma marca no caminho para conseguir voltar depois. Muitos deles ficaram guardados e eu nunca cheguei a recitar em saraus, slams ou eventos. Hoje entendo que talvez eu ainda não estivesse pronta para colocá-los no mundo.

A percepção de que havia um livro ali aconteceu quando comecei a olhar para esses textos depois de um processo muito profundo de análise e perceber que eles conversavam entre si. Havia uma pergunta atravessando todos eles: o que é preciso atravessar para que uma mulher consiga voltar para si mesma?

Foi então que comecei a reunir os poemas, identificar os vazios, perceber o que ainda precisava ser dito e escrever a partir dessas lacunas. Não queria simplesmente publicar tudo o que havia escrito. Queria construir uma travessia.

Em uma manhã de quarta-feira, após sair de uma análise em que tinha apresentado o poema que escrevi durante um processo de luto, fiz minha analista se emocionar e ali entendi: Preciso transformar isso em um livro.

Foi assim que os poemas deixaram de ser acontecimentos isolados da minha vida e começaram a formar uma narrativa maior. Mulher Inteira nasceu quando percebi que aquelas palavras não estavam apenas contando coisas que tinham acontecido comigo. Elas estavam registrando a mulher que eu estava me tornando.

Na apresentação, você diz que Mulher Inteira “nasceu muito antes de se tornar palavra” e que foi preciso atravessar um território profundo e obscuro de si mesma. O que fez essa experiência tão íntima encontrar justamente na poesia a sua forma de expressão?

A poesia sempre foi uma espécie de casa para mim.

Antes mesmo de saber nomear determinadas coisas, eu já sabia senti-las através da linguagem. Por isso, quando encontrei territórios dentro de mim que ainda não tinham nome, a poesia tenha sido uma das primeiras formas possíveis de aproximação.

Mulher Inteira começa a nascer justamente quando percebo que existiam memórias, sentimentos e contradições que eu não conseguia acessar sozinha. A análise me ajudou a olhar para lugares que eu evitava, mas a poesia me permitiu fazer outra coisa com aquilo que encontrei: transformar experiência em linguagem.

E tem uma diferença importante entre contar uma história e elaborar uma experiência. Eu não queria fazer um diário das coisas que me aconteceram. Queria encontrar a palavra capaz de tocar aquilo que estava por trás delas.

Por isso alguns poemas nasceram de perguntas, outros de lembranças e outros quase de sensações físicas. Havia coisas que eu ainda não sabia explicar, mas conseguia escrever.

Carta Para Mim Mesma, poema presente no primeiro capítulo do livro, foi o poema que escrevi para acolher minha criança e compreender o que ela viveu que eu ainda não tinha processado ou verbalizado. E a poesia não me ofereceu necessariamente respostas, mas uma linguagem para permanecer diante das perguntas sem precisar fugir delas.

Há uma ideia muito bonita no livro de que tornar-se inteira não significa eliminar os fragmentos, mas reconhecê-los como parte de quem somos. O que significa hoje, para você, ser uma “mulher inteira”? Essa ideia se transformou ao longo da escrita?

Com certeza se transformou. No início, acho que eu ainda tinha uma ideia muito próxima de inteireza como algo que precisava ser alcançado. Como se existisse uma versão de mim que, depois de resolver determinadas dores, estaria finalmente pronta. Hoje eu penso diferente. Ser uma mulher inteira não é estar inteira o tempo todo. É conseguir reconhecer as partes que existem em mim sem precisar expulsar aquelas que considero difíceis, frágeis, contraditórias ou imperfeitas.

Eu posso ser forte e precisar de colo. Posso desejar independência e ainda querer construir vínculos. Posso saber quem sou e continuar mudando. Posso ter medo e ainda assim seguir. A inteireza, para mim, passou a ter muito mais a ver com pertencimento do que com perfeição. É poder olhar para a própria história e dizer: Eu sou tudo isso mesmo! Rs

E uma das coisas mais bonitas que descobri escrevendo o livro é que não precisei me tornar uma outra mulher para me sentir inteira. Precisei voltar para algumas partes de mim que eu havia aprendido a abandonar. Hoje, quando penso em Mulher Inteira, penso menos em uma mulher que chegou a algum lugar e mais em uma mulher que aprendeu a não se abandonar no caminho.

O corpo aparece de maneira muito forte ao longo da obra — Corpo tempestade, Sismógrafo, Corpo feito reino — e você diz ter aprendido a ouvir aquilo que o corpo tentava dizer antes da linguagem. Que corpo é esse que atravessa Mulher Inteira? E como transformar em palavra aquilo que, inicialmente, não tinha linguagem?

É um corpo que sente antes de conseguir explicar. Durante muito tempo, aprendi a interpretar o corpo como algo que precisava ser controlado, corrigido, apresentado ou adaptado. Escrever Mulher Inteira me fez perceber que existe outra possibilidade: escutá-lo. O corpo do livro é memória, território, desejo, medo, prazer, ancestralidade e também arquivo. Ele guarda coisas que a consciência às vezes tenta esquecer.

Por isso aparecem tempestades, tremores, abalos, fertilidade, movimento. São imagens que me ajudaram a falar de estados internos que nem sempre tinham uma linguagem direta. Antes de conseguir dizer “estou cansada”, o meu corpo já encontrou outra maneira de falar. Antes de entender que determinada situação me atravessava, meu corpo já sabia. Antes de admitir um desejo, já há uma presença física dizendo que alguma coisa está ali.

Transformar isso em poesia foi tentar construir uma ponte entre sensação e palavra. Acredito que existe também uma dimensão política nisso: habitar o próprio corpo é reconhecer que ele não existe apenas para ser visto pelo outro. Ele é o lugar de onde eu experimento o mundo. É a minha primeira casa.

Os títulos dos poemas parecem construir quase uma cartografia dessa transformação: há incisão, movimento, tempestade, abalo, fertilidade, soberania e, finalmente, parto. Você pensou desde o início no livro como esse percurso ou essa arquitetura apareceu quando reuniu os poemas?

A arquitetura apareceu durante o processo de curadoria. Eu não comecei escrevendo Mulher Inteira com um mapa completamente definido. Comecei com fragmentos. Depois, quando fui colocando os poemas lado a lado, percebi que havia um movimento acontecendo entre eles.

Era como se cada poema estivesse dizendo uma parte de uma história que eu ainda não tinha percebido que estava contando. A ideia de percurso foi ficando cada vez mais evidente: primeiro existe aquilo que precisa ser aberto, tocado, confrontado. Depois vêm o movimento, o abalo, a escuta do corpo, o reconhecimento do desejo, a fertilidade, a soberania sobre si mesma. E então o parto. O parto, para mim, não é apenas o nascimento de uma nova mulher. É também o nascimento de uma consciência sobre si.

Separei os poemas por temas e existiram algumas versões antes da versão final. O poema mais íntimo do livro pra mim se chama Solo fértil, poema em que falo do maior renascimento que passei na vida adulta e ele não estava no capítulo que falo sobre o amor e sim no capítulo final do livro. Ao fazer o movimento de colocá-lo no capítulo que falo sobre o amor me despertou para ruína que muitas vezes é necessário passar para reaprender a amar.

Quando percebi essa arquitetura, entendi que não estava apenas organizando poemas. Estava construindo uma experiência de leitura. Por isso gosto de pensar o livro como uma travessia. O leitor não encontra apenas poemas independentes; ele entra em um corpo que está se transformando.

Você é uma artista cuja trajetória também está ligada à palavra falada, à performance e ao Slam das Minas. O que acontece com a sua poesia quando ela sai da voz e do corpo e passa a habitar a página de um livro? E o que você quis preservar dessa oralidade em Mulher Inteira?

Acredito que a poesia não deixa de ter corpo quando vai para a página. Ela apenas muda a forma de respirar. Venho de uma trajetória em que aprendi a pensar a palavra como acontecimento. Recitei em transporte público, em saraus, slams, festivais, palcos e espaços onde muitas vezes eu precisava conquistar a atenção de quem estava ali em poucos segundos. O Slam das Minas também me ensinou muito sobre escuta, presença, ritmo e sobre a potência de uma palavra quando ela encontra um corpo disposto a sustentá-la.

Quando Mulher Inteira foi para a página, eu não quis abandonar isso. Preservei ritmo, repetição, pausas, palavras que retornam ao longo da obra e uma construção que em alguns momentos, pede para ser lida em voz alta. Existem poemas que praticamente respiram como uma performance. Mas o livro também me permitiu fazer algo que a performance não permite da mesma maneira: deixar o leitor sozinho com a palavra. No palco, existe a minha voz conduzindo a experiência. No livro, existe o silêncio entre uma página e outra. O leitor pode parar, voltar, reler uma frase, fechar o livro e continuar pensando nela.

Então não tentei escolher entre a poeta da página e a poeta da performance. Mulher Inteira é justamente o encontro dessas duas mulheres: a que diz em voz alta e a que também sabe quando uma palavra precisa permanecer em silêncio.

O último poema se chama O parto, e agora existe ainda um outro nascimento: o próprio livro chegando ao mundo e encontrando seus leitores. O que significa para você viver esse momento e entregar Mulher Inteira ao olhar do outro?

É uma sensação muito difícil de explicar porque existe uma mistura de alegria, medo, orgulho e vulnerabilidade. Durante muito tempo, Mulher Inteira foi uma conversa que eu tinha comigo mesma. Depois passou a ser uma conversa com algumas pessoas muito próximas. Agora ela se torna pública.

E publicar um livro é, de alguma maneira, aceitar que aquilo que nasceu de você deixa de pertencer exclusivamente a você. Eu escrevi sobre partes muito íntimas da minha experiência, sobre coisas que me atravessaram, sobre medos, desejos, contradições e processos de reconstrução. Então existe uma vulnerabilidade muito grande em imaginar uma pessoa que eu nunca conheci lendo aquilo e encontrando alguma parte da própria história ali, sendo que ao mesmo vejo que justamente esse o sentido mais bonito desse nascimento. Eu não quero que o leitor leia Mulher Inteira e conheça apenas a minha história. Quero que ele consiga se encontrar na própria história. O parto é também isso: entender que depois que uma coisa nasce, você não controla completamente o que ela vai se tornar no mundo.

Eu passei muito tempo escrevendo para conseguir me sentir inteira. Agora entrego o livro para que cada pessoa possa fazer com essas palavras aquilo que precisar. Comecei a escrever porque precisava tirar algumas palavras de mim para me sentir inteira. Agora preciso deixá-las sair de mim para que elas possam encontrar outras pessoas.


Saiba mais sobre o livro Mulher Inteira, publicado em 2026, editado pela Solisluna Editora. O livro está disponível em nosso site e nas principais livrarias do Brasil.

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