Um papo com José Castilho

Um papo com José Castilho

José Castilho é uma das principais referências no pensamento e nas políticas voltadas ao livro e à leitura no Brasil. Doutor em Filosofia pela USP, professor, pesquisador, editor e gestor cultural, construiu sua trajetória na defesa da leitura como direito fundamental. Foi secretário executivo do Plano Nacional de Leitura e Escrita (PNLE), conhecido como “Lei Castilho”. Em “O poder das palavras e outros poderes” (Selo Emília e Solisluna Editora, 2026), José Castilho reflete sobre o papel da leitura, da escrita e da palavra em um mundo marcado por crises políticas, sociais e civilizatórias. 

Nesta entrevista, ele fala sobre sua formação leitora, a importância da leitura para a cidadania e os desafios contemporâneos para formar um país leitor.

por Nilma Gonçalves

O seu nome é referência nas questões relacionadas ao livro e à leitura. Como começou o interesse por esse universo? É leitor desde a infância?

O interesse, de fato, começou desde a infância e eu tive uma família de pessoas leitoras. Minha mãe era professora de Geografia e História, uma leitora regular e constante; meu pai também, assim como meus avós, que eram leitores principalmente de jornais, mas também faziam, eventualmente, incursões pelos livros. Nós tivemos na minha casa livros à disposição, desde a primeira infância. Nesse sentido, eu tive o privilégio de ter uma formação leitora precoce em um país que, na época em que eu nasci, tinha mais de 50% de analfabetos. Eu tive o privilégio de ter uma família leitora. Isso realmente foi muito importante na minha formação e no meu interesse relacionado ao livro e a leitura, porque eu me formei enquanto leitor pelo exemplo das circunstâncias à minha volta. Sempre gostei de ler, sempre gostei de discutir aquilo que eu estava lendo, sempre gostei de interagir com os amigos em torno de histórias narradas ou lidas. Morava em uma cidade muito pequena de 15.000 habitantes. No interior do estado de São Paulo, no final dos anos 1950, e durante os 1960, não havia televisão; a única comunicação dissonante da leitura silenciosa era o rádio. Nós tínhamos uma relação com o mundo que era muito permeada pelas ricas oralidades tradicionais e pelos livros de literatura. E isso é quase tudo que a gente precisa em determinadas fases da vida para construir o imaginário liberto e criativo, construir uma ideia de humanidade, construir uma ideia de relacionamento com o humano e com a natureza, além de um sentido de compartilhamento e de humanização, como ensina o Professor Antonio Candido em seus memoráveis escritos. Meu interesse, portanto, vem desde sempre. 

 

Aliás, o senhor acredita que, para ser leitor, é necessário o incentivo ainda em criança ou as pessoas podem se tornar leitoras em qualquer momento da vida, não importando a idade?

Sem dúvida as pessoas podem se tornar leitoras a qualquer momento da vida, mas é claro que se houver um incentivo desde a primeira infância – e eu diria até na fase de pré-parto, quando, na barriga da mãe, a criança ouve histórias, ouve vozes contando histórias –, tudo isso contribui para que a criança, ao ter um contato com o livro desde o seu nascimento e principalmente a primeira infância, já comece a carregar não apenas a ideia utilitarista da leitura do livro, mas a leitura do livro como um prazer, um objeto que ela pode tocar, que ela pode transformar, que ela pode sentir e que ela pode ter, com certeza, como um objeto da sua vida, que faz parte da sua vida. O livro e as leituras, assim como as oralidades, as contações de histórias, passam a fazer parte daquelas coisas que a cercam e que ela gosta, com as quais tem prazer em estar.  Então, nesse sentido, eu entendo que é fundamental, principalmente quando se trata de políticas públicas, que os esforços se voltem para o incentivo à leitura desde a primeira infância, desde a gestação. 

É na primeira infância que as crianças podem se tornar potenciais leitoras, desde que sejam ofertados a elas livros de qualidade, com atividades voltadas para cada nível sensorial e de conhecimento que podem ter nas várias fases do seu crescimento. Mas não se pode descartar, em nenhum momento, que uma pessoa que não teve o direito e acesso ao livro e à leitura possa ter esse direito em qualquer momento da vida. Por isso, os planos de leitura e as políticas públicas têm que se voltar para todos e todas, seja qual for a idade, a classe social, o gênero, a etnia, a ancestralidade ou a portabilidade de qualquer deficiência física. Todos e todas têm o direito humano inalienável à leitura e à escrita. 

 

Qual a importância da leitura para a consolidação da nossa cidadania?

O domínio da leitura é anterior à consolidação da cidadania no mundo contemporâneo, que se organiza em torno da expressão oral e escrita que, por sua vez, é fruto da capacidade do ser humano de raciocinar, pensar e formular livremente o seu pensamento lógico. Na verdade, a pessoa que se forma como leitor adquire os instrumentos para entender os mecanismos de comunicação das classes dominantes. E em todos os sentidos de classe dominante, desde a linguagem da classe dominante econômica e social até a da intelectualizada, porque todos esses grupos dominantes usam, de maneira geral, com maestria, a palavra como instrumento de poder, como instrumento de dominação. Quem detém hoje a palavra, quem detém hoje os instrumentos de leitura e de escrita, tem a possibilidade de exercer a disputa do poder, porque nós nos comunicamos dessa forma, nós construímos a linguagem nesse sentido. Então, a consolidação da cidadania, que, em outras e em poucas palavras, quer dizer exatamente a possibilidade da ação igualitária no exercício do poder do Estado democrático – ela acontece também pela palavra, pelo domínio dessa palavra, pela interlocução qualificada dessa palavra. É claro que há muitos outros elementos que constituem, que dão contorno, substância e efetividade a esse poder da palavra. Mas é o uso da palavra que nos leva ao domínio da força, ao domínio dos recursos econômicos, ao domínio da propriedade na sociedade em que vivemos hoje. Podemos dizer que a  palavra é a porta de entrada para você fazer essa disputa, para você abrir essa possibilidade do debate em que todos entram com o domínio das mesmas armas no parlamento, na imprensa, na escola e nas relações de trabalho. Quem fica calado porque não sabe e não tem instrumentos para o uso da palavra, seja na fala ou na escrita, não consegue exercer o seu direito de cidadania de maneira plena. Uma boa síntese é uma frase referencial de Eliana Yunes: “Quem lê, pensa. E quem pensa, não cala”.

 

Quem lê necessariamente desenvolve senso crítico?

Eu não diria, necessariamente, até porque a complexidade da mente e dos sentidos humanos é quase infinita, e a ciência ainda tem muito a pesquisar. Mas o estímulo, a humanização proporcionada pela leitura, principalmente a literária, onde há sempre o palco dos conflitos humanos, das reações da natureza, dos misticismos e crenças, do imaginário criativo, entre tantas possibilidades de uma história, certamente fornecem os instrumentos para que as pessoas leitoras adquiram o senso crítico. Pode-se notar isso desde a mais tenra idade entre crianças que têm um nível crítico nas perguntas e aquelas que ficam na média comum da idade. Os pais geralmente passam maiores “apertos” nas respostas se os filhos forem leitores ou bons ouvintes da prática leitora realizada em seu entorno.


Com o domínio cada vez maior das big techs, através de ferramentas como redes sociais, I.A., etc., vivemos os tempos mais desafiadores para a formação de novos leitores? Ou essas ferramentas podem ser aliadas?

Eu prefiro ver mais pelo lado de que são novos instrumentos que podem, se adequadamente utilizados, auxiliar nessa luta infinita pela formação de novos leitores. A nossa capacidade de raciocínio e de imaginação tem possibilidade de absorver os instrumentos que são criados tecnologicamente. Por mais tecnológicos que sejam, eles nunca deveriam ser encarados no sentido de dominar a mente humana ou de nós nos subordinarmos a eles. Não há nenhuma razão necessária, ou pelo menos que eu conheça, objetivamente necessária, para que nós estejamos subordinados a qualquer tecnologia se houver uma mente humana, um domínio humano, sobre a tecnologia e ela for utilizada de maneira adequada. As tecnologias digitais podem ser um elemento auxiliar de informação e de formação, mas sempre orientadas e com curadoria realizada por um ser humano bem formado, portador de honestidade intelectual, moral ilibada e com os olhos voltados para o desenvolvimento integral do ser humano de forma democrática, de forma inclusiva. Apesar de entender dessa forma, não desconheço o perigo que corremos pelo monopólio exercido mundialmente pelas chamadas “Big Techs” atuais, formadas para serem as gerentes únicas e superiores da geração de conhecimento e informação no mundo e dominadas por grandes grupos e interesses econômicos muito distantes dos ideais democráticos e includentes. No entanto, este é um problema que transcende a questão da leitura e está na órbita da manutenção da própria democracia e dos direitos humanos para toda a humanidade.


O senhor é considerado o “pai” do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), um marco histórico no que se refere à implantação de políticas públicas de incentivo ao livro e à leitura. Quanto essa lei já ajudou no desenvolvimento do livro e da leitura no Brasil e quanto ainda falta avançar? Quais os maiores desafios? 

O Plano Nacional do Livro e da Leitura – PNLL –, que foi inaugurado em 2006 a partir de movimentos da sociedade civil e do primeiro governo Lula, agora está para ser novamente reeditado, de forma decenal, como novo PNLL 2026/2036. Essa reedição  é resultado da lei 13.696, de 2018, que estabeleceu a Política Nacional de Leitura e Escrita – PNLE. É exatamente essa política que garante, a longo prazo, o direito à leitura para todos os brasileiros e brasileiras. Essa conquista foi histórica e resultado de muitos anos de luta e de militância de escritores, autores, bibliotecários, professores, intelectuais e agentes sociais de todas as ordens e classes, que lutavam há dezenas de anos no Brasil pelo direito à leitura e à escrita para todos e todas. Esse direito, legalmente conquistado a partir da lei 13.696, renova a ideia estratégica de termos o plano nacional do livro e leitura como projeto supragovernamental, suprapartidário, como verdadeira Política de Estado, e não de governo. Apesar dos espaços ainda a serem conquistados serem muitos e pouco ter sido conquistado efetivamente de maneira duradoura e sustentável, nós temos no país, desde 2006, um movimento muito positivo no sentido de publicizar, de colocar em debate o direito à leitura e escrita para todos os brasileiros e brasileiras. Só esse movimento já criou incríveis e excelentes resultados e oportunidades, tanto do ponto de vista nacional quanto do ponto de vista regional, nos estados e municípios. Hoje é impossível se falar de política cultural e educacional sem falar em leitura  e escrita, sem falar em direito à leitura e à escrita. A grande conquista que eu vejo nessa última fase da grande luta por um país de leitores, iniciada em 2006 no nosso país, é exatamente o que o PNLL, e agora a lei da PNLE, está imprimindo na dinâmica da obtenção desse direito humano inalienável que é todo brasileiro e brasileira ter o direito a ler e escrever livremente. O grande desafio transcende o espaço da formação de leitores e suas políticas, porque todas essas possibilidades somente são possíveis se o Brasil seguir como um Estado Democrático de Direito, onde os valores e objetivos da Constituição de 1988 continuam sendo respeitados. O rompimento autocrático da sociedade democrática brasileira é o grande desafio para o conjunto dos direitos humanos e da inclusão social no Brasil, onde se inserem os valores e os objetivos da PNLE.

 

Qual o poder das das leituras compartilhadas?

Quanto à questão das Leituras Compartilhadas, o que posso dizer é que ela teve origem no nome de minha coluna no Rascunho, mas também expressa algo que considero fundamental, parte inexorável do ato de ler, que é o compartilhamento. Por sua vez, compartilhar é uma das atitudes mais humanas que podemos conscientemente exercer, porque significa dar um sentido de coletividade às nossas vidas, principalmente nesse momento em que o que se exalta é a individualidade, é cada um se isolar em seu mundo privado, rechaçando o outro. Como afirmo em um dos capítulos, reproduzindo o lema do IBEAC, “o futuro é coletivo”. 

 

O poder das palavras e outros poderes de José Castilho foi editado no Brasil em março de 2026, fruto da parceria Selo Emília e Solisluna Editora. Esta obra compõe a coleção Ensaios para pensar a leitura, disponível em nosso site.

 

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