Um papo com Tamaruhí Tuxá e Eris Beatriz

Amara Mo Opará - O canto do rio

Por trás de um livro existem muitos encontros. Em Amara Mó Opará – O canto do rio, a escrita de Tamaruhí Tuxá e as ilustrações de Eris Beatriz se unem para dar voz às memórias, à ancestralidade e à relação do povo Tuxá com o Rio São Francisco. Nesta entrevista, as autoras compartilham o processo de criação do livro, falam sobre a importância da literatura indígena e refletem sobre como as histórias podem preservar saberes, fortalecer identidades e criar novas formas de diálogo entre diferentes culturas.

Tamaruhí Tuxá escritora

1. Você é uma jovem liderança indígena que atua na defesa do seu povo, de sua cultura e de seu território. Como foi a experiência de escrever e ver publicado o seu primeiro livro?

Ver Amara Mo Opará sendo publicado e ganhando o mundo tem sido uma experiência única, que une o orgulho de uma realização pessoal e o senso de dever cumprido com a minha comunidade. 

Eu já havia tido oportunidades muito gratificantes de participar de obras coletivas e tive publicações em parceria com outros criadores, o que me trouxe muito aprendizado. Mas escrever esse livro, agora como única autora, trouxe um peso diferente, uma responsabilidade bonita de dar voz ao que eu acredito e ao que eu vivo como jovem liderança do meu povo.

É uma honra e um orgulho gigante ver a história do meu povo ganhando palco e sendo ouvida de verdade. É muito gratificante fazer parte desse avanço na literatura infantil indígena, trazendo narrativas que mostram a nossa realidade e se tornam uma ponte entre a representatividade, o protagonismo indígena e a descolonização no meio literário.

É muito importante saber que esse livro abre caminhos para que o público geral e outras crianças conheçam a nossa história e abrindo espaço para a desmistificação dos estereótipos que ainda reagem sobre os nossos povos. Para além disso, o que me move é ver as crianças do meu povo se enxergando através do livro. Quero que elas se vejam e se sintam representadas em uma obra que foi pensada e construída por alguém que vive a mesma realidade que elas. Que nossos pequenos possam reconhecer nossos traços, nossa cultura e nosso território vivos pelas páginas de Amara Mo Opará. Mais do que ler, o meu desejo é mostrar para os nossas crianças que elas podem ocupar esses espaços e que devmos ser retratados com legitimidade. Essa é a minha maior realização como autora: poder usar a escrita para devolver algo legítimo, especial e duradouro para o meu povo.

2. O livro traz elementos da memória, da ancestralidade e da relação do povo Tuxá com o rio. Qual a importância de compartilhar essas histórias com crianças e jovens leitores?

Desde o início, era fundamental para mim que a história e a cultura do Povo Tuxá fossem representadas da forma mais fiel e legítima possível. Cada parte desse conto carrega a vivência e a memória dos nossos mais velhos e das nossas lideranças, que guardam a essência de quem somos. A obra fala, em especial, da nossa crença, da nossa espiritualidade e da fé que nos sustenta, trazendo a força do que é sagrado para o papel.

O conto veio como uma forma de expressar o nosso profundo sentimento de pertencimento e a nossa ligação vital com as águas. É uma escrita que nasce da certeza de que somos parte de uma história que começa muito antes de nós, moldada pelo rio e pelo território que defendemos. Compartilhar isso com os mais jovens é garantir que esse vínculo continue vivo e respeitado.

Levar essa mensagem para as crianças e jovens leitores, tanto do meu povo quanto de fora, é também uma forma de celebrar a nossa cultura e a nossa fé. É mostrar que a nossa identidade permanece firme e que a literatura pode ser um território de resistência e de encontro. Ver essas narrativas ganhando o mundo é a afirmação de que o nosso passado e o nosso futuro caminham juntos.

3. Como você imagina que Amara Mo Opará – O Canto do Rio será recebido na escola da sua comunidade e também em outras escolas do Brasil?

Espero que, fora do nosso território, as pessoas recebam essa obra acima de tudo com respeito e escuta. Que o livro desperte uma curiosidade sincera de olhar para os nossos povos sem os filtros do passado, funcionando como um canal vivo para eternizar e espalhar uma parte da nossa memória. Meu desejo mais profundo é que Amara Mo Opará realmente ganhe o mundo, que ele voe longe e passeie pelos melhores caminhos possíveis, alcançando a realidade de tantas outras escolas e crianças pelo Brasil.

Já na escola da minha comunidade, o meu sentimento é outro, é de partilha e acolhimento. Eu espero que a chegada do livro seja recebida como uma verdadeira celebração para o nosso povo, um motivo de orgulho coletivo. Para mim, colocar essa obra nas salas de aula de onde eu vim é uma forma muito bonita de retorno, uma maneira de agradecer e devolver um pouco de tudo aquilo que a minha comunidade sempre fez pelo meu caminhar.

O que eu mais quero é ver os nossos pequenos folheando essas páginas e se sentindo profundamente representados, tocando em uma história e em um território que eles sabem que são deles. Desejo que eles olhem para cada ilustração, para cada palavra, e sintam no peito que a nossa identidade tem um valor imenso, entendendo desde cedo que a nossa voz e as nossas narrativas têm o direito de ocupar o espaço que eles quiserem.

4. O que você espera que os leitores aprendam, sintam ou reflitam após conhecerem a história de Amara Mo Opará?

Espero, acima de tudo, que este livro seja uma ferramenta para descolonizar a literatura. Quero que Amara Mo Opará nos ajude a romper com visões antigas e limitadas, abrindo portas para que os leitores conheçam a profundidade, a verdade e a vivência real da nossa história e do nosso povo. É uma oportunidade de fazer com que a literatura reflita a verdadeira pluralidade do nosso país, dando espaço para narrativas que sempre estiveram aqui, mas que por muito tempo foram silenciadas.

Meu desejo é que as pessoas realmente se conectem com o conto e se sintam tocadas por ele, encontrando nas páginas uma sensibilidade que vai além das palavras. Espero que essa conexão desperte uma reflexão sincera sobre os nossos ideais, as nossas lutas e a nossa forma de ver e respeitar o mundo. Que cada leitor consiga sentir a força e a dignidade que carregamos em nossa trajetória e em nossa relação com o território.

No fim, tudo se resume a criar um espaço de representatividade legítima. Que as crianças indígenas se vejam com orgulho e dignidade nessa obra, e que os leitores não indígenas compreendam o valor de nossa existência e de nossa cultura. Espero que, ao fechar o livro, as pessoas saiam transformadas, entendendo que a nossa memória é viva, presente e fundamental para o futuro de todos nós.

Eris Beatriz ilustradora

1. No seu Trabalho de Conclusão de Curso em Design na Universidade Federal da Bahia, você convidou Tamaruhí Tuxá para escrever a história que daria origem ao livro Amara Mo Opará. Como surgiu a ideia de trabalhar com essa temática e o que a motivou a desenvolver esse projeto?

Durante a graduação, busquei trilhar meus passos criando pontes, pontos de encontro e de interseção com aquilo que acredito. Nesse percurso, alinhar minha criação às causas indígenas e pautas socioambientais abriram caminhos e me levaram a criar alianças muito bonitas. 

O meu ponto de partida foi o projeto de identidade visual da Livraria Maracá – uma livraria especializada em literatura indígena produzida no Brasil – que desenvolvi para uma disciplina durante o curso. Isso me fez perceber que era possível unir a atuação profissional à contribuição da disseminação das vozes, olhares e perspectivas indígenas. 

Posteriormente, surgiu a oportunidade de ser bolsista no projeto de pesquisa e extensão “Livro-Lugar: edição de narrativas de mestres, estudantes e comunidades de povos tradicionais", no edital de 2023-2024 do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Artística (PIBIArtes) pelo IHAC/UFBA. Como bolsista, atuei na diagramação, elaboração de projetos gráficos e ilustrações para os livros de autorias de mestres e estudantes indígenas, a partir do território estético e poético de suas comunidades. 

Durante esse período, pude mergulhar em diferentes perspectivas indígenas, trabalhando com os povos Huni Kuī do Acre, Pataxó de Cumuruxatiba e Tupinambá da Serra do Padeiro, além de contribuir com exposições e outros projetos de promoção às pedagogias territorializadas. O senso de coletividade e comunhão foi uma das características mais presentes no fazer criativo, onde a escuta foi prioridade para a equipe gráfica. Entrar em contato com a potência poética e narrativa de ancestralidade, território e feminino foi uma experiência de profundo atravessamento e inspiração para que nascesse o desejo de dar continuidade nas pesquisas no Trabalho de Conclusão de Curso.

Quando chegou o momento da realização do Trabalho de Conclusão do Curso, eu tinha certeza de que gostaria de desenvolver um livro, mas foi a partir de uma experiência que a minha irmã mais nova vivenciou na escola, que soube por quais caminhos gostaria de seguir na pesquisa. Em determinado dia, ao chegar da escola, minha irmã me contou sobre comentários estigmatizados que escutou sobre os povos indígenas e percebi que os mesmos discursos que escutei durante a minha fase escolar, ainda eram perpetuados mais de quinze anos depois. Além disso, o material pedagógico e literário da escola ainda reproduzia uma visão colonial dos povos indígenas e a maior parte desse conteúdo não era de autoria indígena. 

A partir disso, aprofundei minhas pesquisas sobre decolonialização, cosmovisões indígenas, estereotipação das imagens dos povos originários, entre outros temas que compuseram a revisão bibliográfica do projeto. Acompanhando autores e artistas indígenas, pude encontrar Elis Tuxá, fotógrafa e psicóloga de etnia Tuxá, que através da sua expressão e manifesto de memória do seu povo, me apresentou uma perspectiva além: a diversidade cultural, histórica e de fenótipos, pois os povos indígenas do Nordeste, como o povo Tuxá, ainda sofre com a falta de visibilidade e recursos, além do racismo por ser uma comunidade do sertão, em que não atende às expectativas sociais estereotipadas do indígena “comum”.

Passei a questionar e pesquisar todos esses aspectos, e assim, Elis foi a ponte até Tamaruhí Tuxá, sua irmã e escritora, que ao me deparar com o seu movimento enquanto liderança jovem indígena, e seus textos de tanta potência e sensibilidade, sabia que poderíamos sonhar um livro igualmente potente juntas.

2. Conte um pouco sobre o processo de pesquisa para a construção visual do livro. Quais referências e escolhas foram fundamentais para o desenvolvimento das ilustrações?

Como reflorestar o olhar com novas imagens quanto aos povos indígenas, valorizando a diversidade de fenótipos, a cosmovisão e a cultura Tuxá? Esse foi um dos meus questionamentos, que levou ao ponto de partida para a construção visual de Amara Mo Opará: a documentação e pesquisa bibliográfica em livros, documentários, projetos e materiais acadêmicos que tratassem sobre epistemologias decoloniais, cultura, cosmovisão e história Tuxá, memória oral e diversidade cultural e de fenótipos dos povos originários brasileiros (em especial, do Nordeste).

O diálogo e a escuta foram fundamentais para essa construção visual e tomada de decisões. Tamaruhí esteve presente validando cada etapa, encaminhando referências e sinalizando o essencial: a relação indissociável dos Tuxá com as águas, as malocas, o grafismo e pintura Opará na protagonista, assim como os seus cabelos cacheados, a sagrada planta Jurema, a ilha do serrote, os peixinhos e o território de Rodelas (BA), marcado pelo seu bioma da Caatinga, plantas e animais que constroem o repertório de pertencimento.

Além dos aspectos simbólicos, enquanto ilustradora, optei por trabalhar com texturas de aquarela, como aguadas, manchas e pinceladas, remetendo ao elemento essencial do livro: o povo Tuxá e sua conexão com o sagrado rio. A escolha das cores, seguiram pelos tons do semi-árido de Rodelas: marrons, terracotas, azuis-esverdeados para os rios e verdes vívidos nos cactos e plantas da Caatinga.

3. Como designer e ilustradora, de que forma você pensou a relação entre texto, imagem e projeto gráfico para contar essa história?

Nesse percurso de fazer livros com autores e comunidades indígenas percebi que cada livro é um livro. Cada um possui um processo distinto, um fazer-criar-nascer que só se dá no processo. 

No livro ilustrado – para infâncias ou não – há uma relação, um encontro, quase que uma dança, entre essas três linguagens: a imagem, a palavra, e a última – nem sempre percebida – o projeto gráfico. Durante a pesquisa para a criação de Amara Mo Opará, me debrucei em bibliografias e artigos sobre livros ilustrados e para as infâncias, autores como Sophie van Der Linden, Perry Nodelman, Anita Prades, Ciça Fittipaldi – minha grande referência de artista aliada aos povos indígenas – e também, em autores indígenas de livros infantis, como Graça Graúna, Daniel Munduruku e Yaguarê Yamã.

Realizei uma etapa de “análise de similares” em que estudei outros livros ilustrados de temática indígena e apontei alguns caminhos: havia livros bem tímidos, que seu formato e diagramação não valorizavam as ilustrações e nem geravam impacto visual; outros, com maior impacto nas ilustrações, mas que faltavam nas representações do repertório estético-poético daqueles povos. 

Ao ler o conto de Tamaruhí, senti que ele pedia uma relação entrelaçada entre essas partes: projeto gráfico com textos e imagens caminhando juntos e integrados nas cenas, pois a história evoca memórias e ensinamentos poéticos, como lembranças e sonhos de Kayanny. O livro pedia um formato maior com ilustrações de páginas-dupla que “sangram” as margens, convidando o leitor a mergulhar na história. As tipografias escolhidas para os títulos remetem à manualidade da escrita, mas para o corpo de texto, foi escolhida uma fonte sem serifa que favorecesse a leitura simples e fluida para as infâncias, com tamanho adequado, garantindo boa legibilidade. 

4. Como aconteceu o encontro com a Solisluna e qual foi a importância da editora para transformar o projeto acadêmico em um livro publicado?

Há alguns bons anos acompanho o trabalho primoroso da Solisluna, referência em literatura na Bahia e no Brasil, e guardava o desejo de um dia poder publicar juntos. 

Quando finalizamos o livro, eu e Tamaruhí conversamos sobre levarmos esse projeto além, principalmente para poder viabilizarmos que ele alcançasse as crianças Tuxá do Colégio Estadual Indígena Capitão Francisco Rodelas e, se conseguíssemos, também chegar em escolas e instituições culturais e educacionais da Bahia. 

Até que conversamos sobre enviarmos esse original para avaliação no site da Solisluna. Era importante para nós que o livro ganhasse novos rumos a partir de uma editora baiana, que valoriza e se interessa em ecoar as vozes da diversidade dos nossos próprios povos. Em pouco tempo, Valéria entrou em contato conosco positivamente. 

Aspectos do projeto gráfico foram refinados com a edição da Solisluna, em que: potencializou-se a força das ilustrações das guardas com uma diversidade maior de peixes do Opará; expandiu-se a largura do formato do livro, proporcionando maior impacto visual; e por fim, a escolha de impressão em offset com capa dura valorizou ainda mais o material do livro.

Ver o livro renascer, agora através da publicação pela Solisluna nos apresenta novas perspectivas. A Solisluna tem o compromisso de levar as discussões aqui trazidas, em maiores extensões, através dos editais, festas literárias, bienais e eventos internacionais. Um livro a ser celebrado, que além de fomentar o reconhecimento das crianças Tuxá no protagonismo da história, ele celebra a voz de um povo e abre caminhos para novos olhares, perspectivas e reflorestamento do imaginário.

Saiba mais sobre o livro O canto do rio - Amara Mo Opará publicado em 2026, editado pela Solisluna Editora 🐟

0 comentários

Deixe um comentário

Os comentários precisam ser aprovados antes da publicação.