Resenha do livro Xing Ling - Made in China

Xing Ling Made in China (Solisluna, 2013), romance de Victor Mascarenhas, é uma comédia de ficção científica regional.
Sim, os adjetivos são muitos, e as misturas ainda mais: há chineses que no futuro dominam a cidade de São Salvador, rebatizada de Terra da Felicidade, com a mesma estrutura colonizadora dos portugueses no passado.

O primeiro daqueles, Tomé de Souza, já aparece na epígrafe com um apelo ao Rei D. João III para ir-se embora, ele que era sério e não partilhava de nenhuma farra nos trópicos: “Pelo amor de Deus que Vossa Alteza me mande ir que eu não sei outras palavras por onde o peça (…)”.

Os novos colonizadores, que já dominaram vários outros pontos do planeta, querem pelo contrário a algazarra a todo o tempo, a felicidade transbordante, para que a cidade seja um complexo turístico e os moradores, uns figurantes de animação.

Não é de hoje, nem de amanhã, que se diz ser toda obra futurista uma visão do presente. Victor Mascarenhas vota e confirma. A sua Salvador se parece demais com aquela desmantelada “no início do século XXI”. Os nativos vivem com chips implantados que transformam “o que havia de original nos baianos em um tedioso e previsível simulacro da lendária ‘baianidade’”. A outra parte da população, em maioria, mora fora do complexo e sobrevive de pequenos serviços ou comércio de produtos ilegais, como Raimundão, que une um grupo de revoltosos chamados Caramurus para derrubar a “chinezada” no dia 2 de julho. O brado do líder é o mesmo do livro: enfrentar os muros do imaginário pronto, bagunçar os símbolos, recapturar os clichês.

O instrumento? O eparrey, “[uma droga sintética, desenvolvida pelos chineses da África, os Chinegões], que atua diretamente na região do cérebro onde fica armazenada a memória atávica do indivíduo, o inconsciente coletivo e os instintos mais primitivos”. Um tablete apenas é capaz de desativar o chip controlador, mesmo dos perigosos policiais que se disfarçam de baianas, como os “seguranças de um velho líder político”, enquanto vigiam o patrimônio. Com o efeito, o usuário grita “eparrey, meu pai” e se torna livre para combater o poderio.

O deboche de Xing Ling pretende o mesmo efeito em nós, cidadãos hospitaleiros e de bem com a vida por princípio. Se usa do riso para combater a alegria, é por desconfiar que esta se tornou séria demais, até para o caráter resoluto do nosso primeiro-governador geral. Como diria o poeta e passeador do Centro Histórico, James Martins, “Salvador é uma cidade devastada pela alegria”. Resta liberá-la de sua tensão de ser feliz e relaxá-la para que possa criar suas novas expressões, ainda que sejam as mesmas.

A narrativa de Mascarenhas segue tanto em combate que chega a temer serem extrapolados os limites do burlesco e às vezes tranco o curso com dados instrutivos e repetições esclarecidas, quando não antecipa demais o final e perde uma fatia da intriga para que fulgure a tese, ou a defesa de sua ausência. Tenta-se um tanto justificar a existência, mostrar que a pilhéria não é em vão, quando disso já sabemos. Algum resmungo, no entanto, é motivado pela própria qualidade do autor que, como se evidencia só por uns resumos, tem uma imaginação chinesca. A expectativa, que ainda se concretiza, é que ela tome o poder junto com o “Bora, Baêêêa” dos Caramurus, auxiliados pelo policial-baiana Ueslei, sabendo-se legítima, inventiva, mesmo que “não tenha a menor ideia” do que fazer consigo. É de se realizar pura e simplesmente da alegoria da alegria uma crônica para o futuro, ou o futuro de um tempo que se insiste.

Trecho da obra:

Raimundão e seus homens entram em cena, enfiando tabletes de eparrey na boca de todos os que ainda não tinham recebido o divino sacramento alucinógeno. Há um princípio de tumulto, com algumas pessoas recebendo santos e outras meio atordoadas com o que acontece. No meio da confusão, uma das velhinhas americanas grita:

- Michael, Michael! Eles não ligam pra gente!

A epifania ianque é diferente da local. Elas também ouvem os tambores e entram em contato com a ancestralidade baiana, mas, no caso delas, o fenômeno se dá via Michael Jackson e é o espectro esbranquiçado do lendário rei do pop que surge dançando por entre os bancos do velho templo, usando uma camiseta do Olodum.

- Irmãos baianos, vocês estão livres! Hoje é dia expulsar essa chinezada do Pelourinho e libertar nossa cidade!”

 

Resenha publicada no blog de Literatura do portal iBahia 

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