O olhar terno de Iêda Marques sobre a cultura e o povo da Chapada

19 de Dezembro de 2013, 14:38

Por Andreia Santana

A fotógrafa baiana Iêda Marques pertence àquela rara qualidade de gente dotada de tal sensibilidade que consegue compor poesias com as lentes de sua câmera. E o resultado dos seus versos tecidos em imagens pode ser conferido no primeiro trabalho solo da artista, o livro Iêda Marques – Lembranceiras, imaginário e realidade (Solisluna Editora).

A Chapada Diamantina é o cenário revelado pelas lentes de Iêda em Lembranceiras, mas não apenas aquela Chapada de grotões e flora exuberante para os trilheiros ou turistas. É a partir do povo da região que a autora nos conta uma história feita de muitos instantâneos, mas também de textos que fazem a ponte entre os diversos mundos que formam a Chapada. As fotos, de uma beleza comovente, até falam por sí, mas a prosa da autora, o texto segue um ritmo inspirado no proseado sertanejo, possibilita uma reflexão mais profunda sobre o ambiente, os costumes, a cultura e o povo retratados.

Dotado de um lirismo que remete ao sonho e de um otimismo apaixonante – fiquei de muito bom-humor após a leitura -, o livro traz desde as paisagens vastas até o miudinho do cotidiano dos moradores da região, com sua labuta diária, sua religiosidade, seus batizados, enterros, casamentos, batuques e folguedos. Os retratos, principalmente de personagens mais velhos, mostram aquela expressividade que concentra toda a sabedoria inata da humanidade. A intimidade das casas humildes, suas cozinhas com panos de crochê cobrindo filtros de barro, moringas, flores silvestres sobre as mesas, trempes e fogões à lenha provocam uma nostalgia de um tempo em que, apesar do trabalho árduo sob o sol, a vida era mais singela e  mais bela.

Iêda Marques, que é ativista ambiental desde os anos 70, iniciou o projeto que culminou no livro em 2001 e o esmero tanto na seleção das imagens quanto no acabamento da obra provam que este foi, não apenas um projeto de trabalho, mas um ideal de vida acalentado e gestado com todo o cuidado e paciência. Antes desse projeto, fotos suas – de cozinhas das comunidades rurais da Chapada -, haviam integrado a coletânea Bahias, também editada pela Solisluna.

A fotógrafa tem ainda fotos nos acervos do Museu de Arte de São Paulo e no Museu da Casa Brasileira. Venceu, em 1998, o prêmio Marc Ferrez de Fotografia (Funarte/Minc) e já participou de mostras coletivas e individuais.

Voltando ao livro, mesmo um leitor sem conhecimento especializado de fotografia perceberá que um pedaço de Iêda Marques está em cada linha do seu proseado e, principalmente, em cada uma das fotos. Não à toa, ela escolheu como abre-alas para essa viagem pela Chapada, uma frase de Frida Kahlo: “Vou escrever para você com os meus olhos”. E escreve mesmo, também com a alma!

Resenha publicado no blog de literatura do portal A Tarde