N’A Feira do Livro da Quatro Cinco Um, no Pacaembu, em São Paulo, percebo um fato caminhando entre os estandes: a Solisluna era a única editora baiana ali. Provavelmente a única do Nordeste inteiro. Não escrevo isso com orgulho, pelo contrário, escrevo com desconforto. Porque uma presença solitária não mede a força de quem está; mede o tamanho da ausência de todos os que não estão.
Por muito tempo, isso foi impressão. Agora está em um mapa; ainda neste mês de junho de 2026, o SNEL publicou o primeiro levantamento sistemático das editoras brasileiras: 1.047 casas em atividade. Por mais que, como toda pesquisa, tenha problemas de levantamento, é o recorte que temos para analisar e trazer elementos para a discussão. Noventa por cento das editoras estão no Sudeste e no Sul. Setenta por cento cabem em dois estados: São Paulo e Rio de Janeiro. O Nordeste inteiro responde por 5%. A Bahia, por 1,9%; E a maioria dessas poucas editoras baianas são universitárias, didáticas ou religiosas, não casas de catálogo geral disputando vitrine no mercado aberto. Quando se olha o faturamento, a concentração é quase total: 97% dele fica no Sudeste.
É tentador explicar isso com uma intenção, supor que alguém, em algum lugar, decidiu que o livro brasileiro seria pensado e distribuído a partir de duas ou três cidades. Mas o que incomoda de verdade é que não há decisão nenhuma. Não é preciso vilão. A concentração se reproduz sozinha.
Vale lembrar como o circuito se formou. As grandes casas que ensinaram o país a editar, a Companhia Editora Nacional, a José Olympio, depois a Companhia das Letras, a Cosac Naify, nasceram e cresceram neste “eixo”. Formaram gerações: editores, revisores, preparadores, designers, agentes, divulgadores. E essas pessoas ficaram. O talento que se forma no “eixo” tende a permanecer no “eixo”. Com ele ficam as distribuidoras, as livrarias de rede, a crítica, os prêmios, os júris, as fundações com recursos. O mercado se retroalimenta: está onde já está, e a cada ciclo fica mais difícil sair de lá.
Para uma editora de “fora do eixo”, isso significa pagar pelo menos dois custos onde o centro paga um: o custo de existir e o custo de ser vista. A editora paulista já nasce no centro nacional, não precisa se traduzir. Nós precisamos atravessar o país e ainda explicar de onde falamos. Há, ainda, uma armadilha na própria classificação: o Sudeste publica "literatura"; o Nordeste publica "literatura regional". O universal, no fim, é um privilégio de endereço.
E há o mais árduo, que quase nunca entra na conta: fora do eixo, não basta publicar bem. É preciso construir a demanda que no centro já existe pronta, e formar do zero os profissionais que lá circulam aos milhares. Não herdamos esse acúmulo. Temos que inventá-lo, livro a livro, contra a corrente.
Se ainda existimos, e há editoras nordestinas que existem há décadas, é, em boa medida, por pura teimosia de ser.
Por isso, quero levar uma pergunta a uma Feira que se propõe, com toda razão, ser bibliodiversa. Bibliodiversidade costuma ser medida pelo que está nas mesas: quantas vozes, quantos temas, quantas origens representadas. Mas existe uma diversidade anterior, que quase ninguém conta: a dos lugares de onde o livro é pensado e produzido. Uma feira pode reunir todas as vozes do Brasil e, ainda assim, ter sido inteiramente editada, financiada e legitimada a partir de duas cidades.
Quando o Nordeste aparece nas estantes como tema, e quase nunca como editora, o que se celebra é a representação de uma cultura cuja produção continua acontecendo noutro lugar. A periferia fornece a matéria-prima, as histórias, as culturas e identidades, os orixás, a "diversidade" – e o centro agrega o valor: edita, capitaliza, celebra e vende de volta. É o velho desenho colonial, agora em forma de catálogo.
Mas uma editora não é uma vitrine de temas. É o aparato que decide o que merece virar livro, conhecimento que merece ser publicado: que dá forma, chancela, faz circular. Concentrar editoras num só lugar é concentrar o poder de dizer o que conta como conhecimento legítimo. E bibliodiversidade, se quiser dizer alguma coisa, também é isso: produção de conhecimento, não só representação dele.
Então a pergunta que trago do Pacaembu não é se havia diversidade nas mesas. Havia, sim! Em um evento belíssimo, único no Brasil. Mas a pergunta é outra, e mais incômoda: a bibliodiversidade alcança também a geografia de quem produz o livro? Ou pára na geografia de quem é publicado?
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