RUA J, MESSE FRANKFURT

08 de Novembro de 2013, 12:03

Deitei em uma rede, abri uma história em quadrinhos (narrava a viagem do escritor austríaco Stefan Zweig ao Brasil) e fui filmada por um canal de TV alemão nessa fruição sem pressa. Permaneci ali por quase dez minutos a pedido da simpática Agel, repórter da Deutsche Welle, que ajudava o cinegrafista a encontrar diferentes ângulos desse ótimo jeito brasileiro de se entregar ao prazer da leitura.

Sem dúvida, foi um excelente início para mim. Havia vestido sapatos confortáveis prevendo uma manhã exaustiva para os jornalistas presentes na coletiva e no tour no pavilhão brasileiro na Feira do Livro de Frankfurt, no dia 8/10, mas quase não foi necessário, já que pude manter os pés suspensos no ar - no tempo e no espaço - e ler calmamente quase como se estivesse em casa, na Bahia. 

Este clima acolhedor fazia parte de toda a programação visual do espaço brasileiro na Feira do Livro de Frankfurt. O pavilhão tinha também bicicletas, almofadas no chão, uma exposição interativa mostrando os personagens clássicos da literatura brasileira e uma estante lotada de livros de brasileiros traduzidos para o alemão.  

Fiquei feliz em ver, nesta mesma estante, um exemplar da antologia de jovens autores brasileiros publicada este ano pela Klaus Wagenbach, de Berlim, com um texto de João Filho (nascido em Bom Jesus da Lapa) e também um conto meu, na estante dos livros que representam o Brasil na Alemanha. Alguns dias depois compareci à festa em torno deste livro no Café Natschleben, no centro de Frankfurt, acompanhada de João, sua mulher e também escritora Állex Leila, Monique Badaró e Milena Britto, da Funceb-BA, a escritora Débora Kntittel, o ilustrador Ian Sampaio e meus queridos editores da Solisluna, o casal Valéria Pergentino e Enéas Guerra. 

Mas o que mais gostei do pavilhão brasileiro foi o espaço de conversas / palestras / leituras públicas, onde assisti algumas das mesas mais empolgantes de todos os tempos. Gostaria de ter ido mais vezes para lá e repetir a visão caleidoscópica proporcionada pela fala de autores de grande repertório e vivência, como Joca Reiners Terron, um dos  meus favoritos da literatura contemporânea, aliás. 

Outro dos meus locais favoritos na Feira do Livro foi o espaço da editora Solisluna, localizado na "rua J" do mapa do estande coletivo. Nossa "vitrine" estava sempre sendo visitada por pessoas que perguntavam sobre o catálogo, a Bahia, o Brasil e tudo o mais. Sem dúvida uma vitrine, como definiu Cristóvão Tezza, mas não apenas isso: também um ponto de contato com tradutores, agentes literários, editores estrangeiros, enfim, uma série de pessoas interessadas no trabalho da Solisluna, de seus editores, ilustradores e autores. 

CONTEC - Mas: voltemos um pouco. ainda no dia 8, antes mesmo da abertura oficial da Feira do Livro, eu já estava participando da Contec, evento da Frankfurter Academy voltado ao aprimoramento do mercado editorial. Integrei um laboratório interativo sobre autopublicação com executivos da Amazon, da Kobo, jornalistas especializados e agentes literários estrangeiros. Foi uma bela conversa franca de duas horas entre os convidados e o público, todos sentados em torno de uma mesa de reuniões em que todos se viam e podiam falar. Voltei com muitos dados interessantes, como a declaração do representante da Amazon de que o Kindle está para chegar com força no Brasil nos próximos anos. 

Como faz menos de 30 dias que foi a público um romance meu, em formato digital (Viagens de Walter, disponível em EPUB no site da Solisluna), trafeguei na Contec em busca de mais informações sobre distribuição, controle de número de downloads, estratégias de engajamento de leitores tradicionais para o livro digital etc. Também assisti a painéis sobre design e leitura interativa de livros digitais. 

Nos dias seguintes, de 9 a 12 de outubro, meus pés começaram a inchar dentro das crocs, pois andei por todos os pavilhões, assisti a eventos, palestras, falas, coletei catálogos inspiradores e conversei com uma agente literária estrangeira que há muito tempo gostaria de ter conhecido.  Tive em todos os momentos a boa companhia de Débora Knittel, autora de dois títulos infantis da Solisluna, com quem também dividi o quarto no apartamento alugado em Frankfurt, no bairro de Eschersheim. 

Com Débora aprendi um pouco mais sobre literatura: falamos de técnicas de construção de narrativas longas de ficção,da estratégia utilizada nas histórias de mangás, do efeito causado pela leitura de O Apanhador de Campos de Centeio etc etc etc, de modo que conviver com ela se tornou uma das coisas mais agradáveis da viagem. 

O escritor em geral é uma pessoa muito solitária, que necessita de solidão mas também precisa de interlocutores que falem a mesma língua. A Feira do Livro de Frakfurt nem sempre fala ao escritor; ao contrário, somos apenas um dos elementos do "mercado editorial", talvez os que menos possuem forças diante de fatores grandiosos como alcance de público, índice de vendas, repercussão no mundo literário e assim por diante. 

Durante o evento gostei muito também de conhecer o trabalho de outros autores baianos, conversando com Állex Leila e João Filho e comparecendo ao lançamento da antologia lançada pela Fundação Cultural do Estado da Bahia na manhã do dia 18, onde assisti a um painel bastante detalhado feito Milena Britto, doutora em literatura, estudiosa e conhecedora de um vasto panorama cultural. 

Foi sem dúvida muito inspirador estar na Feira e agradeço pela oportunidade gerada pelo esforço da equipe da Solisluna Editora, e também o apoio do Fundo de Cultura através do edital de Mobilidade Artística da Secult-BA. Oh sim, e também a Iêda Marques que nos fotografou sorrindo em nossos instantes de plenitude durante a jornada. 

 

_ Katherine Funke, 32, é mãe de Izak, jornalista e escritora. Autora "Viagens de Walter" (romance, 2013) e de "Notas Mínimas" (contos, 2010), ambos publicados pela Solisluna. No momento, ministra oficina de contos no Cine-Teatro de Lauro de Freitas (http://oficinadecontos2013.wordpress.com  

[caption id="" align="alignnone" width="600.0"]Katherine Funke e parte da equipe da Solisluna  Editora no pavilhão do Brasil, na Feira do Livro de Frankfurt. Katherine Funke e parte da equipe da Solisluna  Editora no pavilhão do Brasil, na Feira do Livro de Frankfurt.[/caption]