As âncoras de Katherine Funke

20 de Dezembro de 2013, 13:14

Por Rubens Herbst

Há uma década, Katherine Funke deixou Joinville para navegar em águas baianas. Nelas, descobriu-se escritora – e, mais recentemente, mãe -, senha para deixar de lado o jornalismo diário e mergulhar de cabeça em observações, ideias e palavras. Tal maré a fez também viajante e carregou-a de volta a Santa Catarina, mais precisamente a Florianópolis, onde desde março exerce residência artística ancorada no Projeto Viagens na Barca. Dessa experiência emergiu o segundo livro de Katherine, Viagens de Walter (Solisluna Editora), ficção sobre autodescobertas, inquietação e rompimentos. Detalhe: trata-se de um e-book, ou livro digital, cujo download gratuito pode ser feito no solislunaeditora.com.br. Uma nova correnteza que a escritora percorre com prazer, como ela conta nesta entrevista.

Fale um pouco da residência artística…
Katherine Funke - Foi um processo muito bacana de interação com a Barca dos Livros, biblioteca comunitária e Ponto de Cultura localizada na Lagoa da Conceição, em Florianópolis. Durou seis meses, desde março até agora. Nos primeiros três meses, realizamos encontros de conversas sobre livros e fruição de prosa e prosa, tanto dentro da sede da Barca, quanto navegando na lagoa. Nos três meses finais, me dediquei mais ao fechamento do livro, o romance Viagens de Walter, mas segui participando de algumas atividades da biblioteca, como narração de histórias para adultos e crianças.

Sobre o que é o livro?
Katherine – Trata da possibilidade de se ter a força de fugir do padrão esperado (pela família, status etc), e construir um novo caminho a partir da inquietação, do esforço pessoal e do aprendizado com trocas interpessoais. Apesar de ter um protagonista masculino, considero que também é, em um plano mais sutil, um romance sobre a maternidade, pois temas correlatos estão o tempo todo presentes.

As viagens, o contato com outros lugares e pessoas, isso influenciou no tema do livro?
Katherine – Sim. Em outro romance, Maria João, escrito a quatro mãos com Luis Daltro (ainda inédito), já havia trabalhado a questão da viagem como caminho de transformação pessoal. Em Viagens de Walter, finalmente usei minha voz mais ativamente. Coloco na trama (vejo agora, depois de terminado) a minha própria crença na importância do deslocamento geográfico e do contato com novas culturas/outras pessoas para o crescimento pessoal. Desde criança tenho fascínio por estar de partida ou de chegada.

Um médico em busca de novas perspectivas parece remeter aos médicos cubanos que acabam de chegar ao Brasil…
Katherine - Incrível coincidência – e só me dei conta dela agora no mês final de escrita do livro. Comecei Viagens de Walter em 2007, quando nem se falava do assunto. E nesses meses de residência artística aqui, assim como o meu personagem, quase não li notícias, não comprei jornal, não tenho televisão aqui, então fiquei bem por fora mesmo do calor dos fatos. Mas incorporei, de última hora, algo do clima em torno dos cubanos e do SUS no livro. O livro se passa em 2013, então é mesmo pertinente que faça referência ao tema.

O que você acha dessas possibilidades do e-book? Você é adepta da leitura digital?
Katherine – Leio muitos e-books no meu tablet ou no celular, nas situações mais estranhas, quando não tenho um livro comigo ou simplesmente porque não quis comprá-lo em papel para não carregar peso ou para economizar. Trouxe comigo, da Bahia, no meu tablet (iPad, na verdade), mais de 50 títulos, e aqui comprei mais uns cinco e baixei uns dez títulos gratuitos. Para carregar tudo isso da Bahia para Santa Catarina e depois voltar pra lá, teria de transportar uma mala extra e pagar excesso de bagagem. Então aí está uma primeira vantagem, ter um conteúdo offline para ler em qualquer lugar sem precisar carregar peso.  Vejo muitas outras vantagens no digital. Outra: pode caber muito mais conteúdo em uma publicação, pois não gasta papel… Não acredito que o digital vá matar o livro impresso. As duas formas vão coexistir por muito, muito tempo. Amo livros impressos, amo-os muitíssimo, quero que meus filhos, meus netos, bisnetos, tataranetos, todos leiam livros em papel.  Mas também acho que, já que a leitura digital está ocupando boa parte da nossa rotina, podemos aproveitar os mesmos dispositivos para lermos desconectados um outro tipo de conteúdo, em qualquer parte que estejamos.

Trouxe retorno participar daquela coletânea lançada na Alemanha?
Katherine - Sim, estou indo para a Feira do Livro de Frankfurt em outubro, junto com um coletivo de autores da Solisluna Editora, com apoio de um edital de mobilidade artística da Secult-BA, em parte graças a ter sido publicada em Berlim. Além disso, fui procurada por jornalistas alemães, escreveram sobre meu trabalho, e outras coisas bacanas. Mas o principal retorno, assim de imediato, foi um ganho pessoal na minha fé de que vale a pena escrever um pouco a cada dia, sem parar, ou pelo menos sem pausas longas.

Fez um bem danado para a Katherine escritora essa década fora de Santa Catarina, não?
Katherine – Sim, a solidão inicial lá me fez consolidar a prática da escrita ficcional e jornalística. Depois, vieram oito anos de reportagem em jornal diário, sempre nas ruas, que também me colocaram em contato com uma infinidade de situações humanas (ou desumanas) que ajudam a formar o repertório de um escritor. E também na Bahia tive a sorte de encontrar uma editora com vontade de publicar novos autores, a Solisluna, que lançou meu primeiro livro com todo o capricho (Notas Mínimas, contos, 2010). A Solisluna Editora também assina Viagens de Walter – convidei-a durante o processo e ela aceitou. Será a primeira experiência da Solisluna com e-book. Por algum tempo, pensei em convidar uma editora catarinense, mas não consegui desenvolver muito a procura a uma nova casa editorial durante minha estadia aqui. Quem sabe, no futuro, possa ser editada em Santa Catarina. Vou ficar feliz.

 

A entrevista com a jornalista e escritora Katherine Funke foi publicada no blog Orelhada de Joinville, Santa Catarina, em setembro de 2013.